Introdução
Ter fome, procurar e selecionar alimentos para saciá-la, sentir o seu gosto, mastigá-los e, em seguida degluti-los – atos simples, essências sobre a sobrevivência e que executamos diariamente, sem darmos conta de toda a sua complexidade. Assim é que, desde a percepção da necessidade de se alimentar até a absorção final dos nutrientes, a partir do trato gastrintestinal, todas as etapas da alimentação são controladas, direta ou indiretamente, pelo sistema nervoso. Não é, portanto, de estranhar que doenças que o acometam seja tão frequentemente acompanhadas de distúrbio do estado nutricional. Recentemente, a medicina contemporânea, passou a dar mais atenção à avaliação e acompanhamento nutricional desse grupo de pacientes.
As doenças neurológicas têm um enorme potencial para causar distúrbios alimentares, podendo interferir em qualquer etapa da alimentação.
A doença de Parkinson é uma doença degenerativa, crônica, do SNC, que afeta cerca de 1% da população acima de 50 anos, sem predileção por sexo. A doença de Parkinson que envolve o SNC vai levar dificuldade na obtenção, deglutição, e/ou digestão de alimentos. Dos sintomas neurológicos relacionados com a alimentação, a disfagia é o mais freqüente, chegando a estar presente, em algum grau, em até 50% dos pacientes neurológicos. Chama-se de disfagia o distúrbio na ingestão de secreção endógena e nutrimento necessário para a manutenção da vida, podendo ela ser de origem orofaríngea ou esofagiana.
Diante do exposto, pode-se concluir que uma alimentação adequada é altamente dependente da integridade dos vários seguimentos do SNC.
Etiologia
Apesar dos novos conhecimentos adquiridos nos últimos anos, a causa da
Doença de Parkinson permanece desconhecida. Provavelmente, existem múltiplos
fatores que se somam: fatores genéticos, ambientais, do envelhecimento.
Dentre os vários mecanismos possivelmente implicados na degeneração celular da Doença de Parkinson, estudos destacam os seguintes: ação de neurotoxinas ambientais, produção de radicais livres; anormalidades mitocondriais, predisposição genética e envelhecimento cerebral.
Dentre os vários mecanismos possivelmente implicados na degeneração celular da Doença de Parkinson, estudos destacam os seguintes: ação de neurotoxinas ambientais, produção de radicais livres; anormalidades mitocondriais, predisposição genética e envelhecimento cerebral.
O seu início é geralmente insidioso, e o ritmo de progressão é variável.
Fisiopatologia
A referência patológica da doença é caracterizada pela
destruição difusa dos neurônios da substância negra. O acometimento destes
neurônios, como a sua morte ou mal funcionamento, leva a não produção do
neurotransmissor dopamina e assim, a não transmissão de informações para o
corpo estriado. Então, o corpo estriado fica excessivamente ativo e
possivelmente causa aferência contínua de sinais excitatórios para o controle
motor cortiço espinhal. Esses sinais podem excitar de forma contínua vários
músculos do corpo causando Rigidez. A ausência de dopamina, também no estriado,
leva a um desequilíbrio entre os sistemas excitatório e inibitório, sendo que
devido aos padrões de movimentos tenderem a uma alternância de excitação /
inibição, o movimento tranca em uma direção com dificuldade de progressão o que
leva a Bradicinecia.
Sintomatologia
Os primeiros sintomas da doença de Parkinson têm início de
modo quase imperceptível o que faz com que o próprio paciente não consiga
identificar o início preciso das primeiras manifestações. Muitas vezes, amigos
ou familiares são os primeiros a notar as primeiras mudanças. O primeiro sinal
pode ser um ou mais dos seguintes:
- Sensação de cansaço ou mal-estar no fim do dia
- Caligrafia menos legível ou com tamanho diminuído
- Fala monótona e menos articulada
- Depressão ou isolamento sem motivo aparente
- Lapsos de memória, dificuldade de concentração e irritabilidade.
- Dores musculares, principalmente na região lombar.
- Um dos braços ou uma perna movimenta-se menos do que a do outro lado
- A expressão facial perde a espontaneidade, diminui a freqüência dos piscamentos.
- Os movimentos tornam-se mais vagarosos, a pessoa permanece por mais tempo em uma mesma posição.
Tratamento
O diagnóstico à
medida que o tempo passa se torna mais nítido, evidente e fácil. Cada indivíduo
responde diferentemente ao tratamento e o que favorece um paciente pode
desfavorecer outro. É necessário corrigir a diminuição progressiva da dopamina
com calma.
O tratamento
consiste no uso de medicamentos, fisioterapia, psicoterapia e, em alguns casos
selecionados, cirurgia. É importante tomar cuidado com certos tipos de
medicamentos que desencadeiam ou pioram a síndrome Parkinsoniana.
·
Tratamento medicamentoso
Geralmente são
usados medicamentos da classe dos anticolinérgicos, como o triexifenedil e
biperideno, que são eficientes e bem tolerados. A selegilina tem sido
considerada uma das principais drogas do cérebro desde 1990. Também são
utilizadas a levodopa, a carbidopa e a benzerazida.
Bromocriptina,
lissurida e pergolida são novos medicamentos que quando indicados devem ser
dados progressiva e lentamente, até atingir as doses suficientes.
Como a doença é
progressiva, novas manifestações de difícil controle aparecerão, como o
"liga - desliga" nas atividades do paciente, as quais estão
atualmente sendo controladas acrescentando-se ao tratamento tolcapom e
pramipexole.
·
Tratamento Psicoterápico
Pacientes com
Parkinson podem ter problemas mentais, como depressão, graus diversos de
demência, próprios da doença e piorando pelos medicamentos anteriormente
indicados (levodopa, anticolinérgicos, selegilina, amantadina). Consegue-se
controlar este sério problema principalmente com a Clozapina, que trata os
quadros psicóticos, não piorando a sintomatologia parkinsoniana, pelo
contrário, podendo melhorar também o tremor. Essa droga precisa de uma supervisão
médica severa.
Os antidepressivos
fazem parte do arsenal terapêutico com os seus devidos controles.
O psicoterapeuta e
a família dando ocupações, carinho e estímulos são elementos importantíssimos
na boa evolução do paciente.
·
Tratamento cirúrgico
Há décadas vem
sendo utilizado o tratamento cirúrgico para o controle da sintomatologia
parkinsoniana, ora atuando sobre os tremores, ora sobre a rigidez, com técnicas
e resultados variáveis e discutíveis.
Com os novos
aperfeiçoamentos tecnológicos, o tratamento cirúrgico em casos sumamente
selecionados poderá ser indicado. A cirurgia, atualmente usada, consiste na
retirada de uma região específica do cérebro, o tálamo.
Relação com a nutrição
Dependendo da fase da doença, da dose do medicamento ou da
etapa do tratamento, podem-se observar alguns sintomas que dificultam uma
alimentação adequada, fazendo com que o estado nutricional do parkinsoniano
fique prejudicado, necessitando de intervenção de um profissional de nutrição e
ajuda de outros profissionais e da família.
Muitas vezes, o indivíduo com a Doença de Parkinson já está
inserido no grupo da terceira idade e, dependendo do seu modo de vida, pode
apresentar outros problemas relativos à saúde, como a hipertensão, hipercolesterolemia,
osteoporose, problemas cardiovasculares, distúrbios genitourinários, entre/outros.
Desta forma, devem-se considerar as manifestações das diversas doenças quando
vamos alimentar-nos. Uma dieta bem orientada pode ajudar a vencer as dificuldades.
Vários fatores podem apresentar-se como risco para falta de
apetite, perda de peso e, conseqüentemente, má nutrição. São eles:
- A aposentadoria reduzida e muitas vezes adquirida muito cedo;
- Isolamento da família e/ou da sociedade;
- A não-aceitação da doença;
- A existência de outras doenças conjuntas;
- Problemas de dentição e dificuldades de mastigação e deglutição (ato de engolir os alimentos líquidos e/ou sólidos);
- Depressão e, em alguns casos, demência;
- Pouca atividade física e imobilidade;
- Medicamentos usados na fase inicial da doença interferindo na absorção intestinal, dificultando o seu funcionamento, provocando náuseas, vômitos, intestino preso ou boca seca, reduzindo a sensibilidade do paladar e do olfato;
- Aumento do metabolismo e conseqüentemente das necessidades energéticas, facilitando a perda de peso;
- Falta de equilíbrio para preparar a sua própria alimentação ou inexistência de outra pessoa que possa fazê-lo.
- Problemas com a postura e dificuldade em manter-se ereto à mesa;
- Dificuldades motoras para manusear os talheres;
- Os movimentos do esôfago que ajudam a "empurrar" os alimentos para o estômago podem estar prejudicados, provocando engasgos e dificultando a deglutição;
- Tremor e rigidez, especialmente nos músculos da face, dificultando a mastigação e deglutição;
- Abuso de bebida alcoólica e de medicamentos;
- Hábitos alimentares inadequados;
- Descaso com a própria saúde.
6.1. Proteína X Levodopa
A proteína que é encontrada nas carnes vermelhas ou brancas
nos laticínios (leite, iogurte e queijos) e ovos pode interferir na utilização
da levodopa. Esta interferência depende da resposta de cada organismo ao
tratamento com a levodopa. O que acontece é que, tanto no intestino quanto no
cérebro, a proteína e a levodopa são absorvidas no mesmo local e ao mesmo
tempo. Só se pode, porém, absorver uma de cada vez. Se estas duas estão juntas,
uma prejudica a outra. Elas entram em competição e quem sai perdendo é
geralmente a levodopa, que acaba não produzindo o efeito terapêutico desejado.
Isto ocorre com maior freqüência naqueles indivíduos que têm grandes flutuações
no tratamento.
Alguns estudos têm mostrado os benefícios de uma dieta
com menor quantidade de proteína e o consumo da mesma em horários mais
distanciados do uso da levodopa. O que acontece é que, de um modo geral, as
pessoas costumam consumir excesso de proteína (muita carne, presuntos,
hambúrgueres e outras preparações).
6.2. Constipação intestinal
O intestino preso é uma das queixas mais freqüentes. Esta
freqüência aumenta com a idade e é comum entre os parkinsonianos, atingindo
mais de 50% deles.
Na doença de Parkinson, permanecer com o intestino
constantemente preso pode atrapalhar o tratamento com a levodopa, já que
dificulta sua absorção. Além disso, quando o intestino está preso por muito
tempo, há uma reprodução aumentada de bactérias. Estas bactérias transformam a
levodopa em dopamina, que não consegue penetrar no cérebro e ter o efeito
terapêutico desejado.
6.3. Papel dos cereais
O parkinsoniano tem tendência a perder peso. O grupo de
cereais, juntamente com as carnes e os laticínios, contribui para a recuperação
do peso.
Este grupo tem como principal função o fornecimento de
energia ao nosso organismo. Ele engloba alimentos ricos em carboidrato, que é
um nutriente. Aqui está arroz, milho, centeio, trigo, aveia, farinhas e todos
os seus produtos (pães, bolachas, bolos, polenta, angu, tortas, farofa e
outros).
6.4. Rigidez da face, dificuldades de deglutição e
mastigação.
Na doença de Parkinson, encontramos algumas alterações motoras
que podem dificultar a alimentação adequada. O enrijecimento da face dificulta
a mastigação e a deglutição apresenta-se deficiente, provocando engasgos com
freqüência. A passagem do alimento do esôfago até o estômago fica mais
demorada.
6.5. Observações especiais
Alguns parkinsonianos podem apresentar confusão mental em
certa fase da doença. Desta forma, podem esquecer se já comeram ou não.
A associação de vários medicamentos ao mesmo tempo aumenta o
risco de distúrbios gastrointestinais, como náuseas, queimação no estômago e
vômitos.
Necessidades nutricionais
7.1. Alimentos protéicos
·
Ingerir
os alimentos protéicos em horário distante do uso da levodopa (½ a 1 hora antes
da refeição na qual costumamos ingerir carne branca ou vermelha, leite, queijo,
iogurte e ovos).
7.2. Fibras
·
É
recomendável a ingestão de 25 a
30 g de
fibras alimentares por dia.
7.3. Perda de peso
·
Ocorrendo
perda de peso, deve-se ingerir mais alimentos que possam manter o peso normal,
evitando a perda acelerada. Podemos aumentar o consumo de alimentos ricos em
carboidratos, por serem energéticos.
·
Procurar
pesar pelo menos uma vez por mês.
7.4. Exemplo de cardápio
Refeição
|
Alimentos
|
Substituições
|
| Café da manhã | Leite Pão francês Queijo Mamão |
Queijo, iogurte Torrada, aveia Margarina Laranja, banana, maçã |
| Lanche da manhã | Maçã | Pêra, kiwi, abacaxi |
| Almoço | Arroz Feijão Bife grelhado Cenoura cozida Alface Laranja |
Batata, massa, polenta Lentilha, ervilha seca Frango, peixe Chuchu, beterraba, jiló Agrião, rúcula Melancia, melão, uva |
| Jantar | Arroz Feijão Frango Abobrinha Tomate Mexerica |
Pão Peito de peru Alface Tomate Caqui |
| Lanche noturno | Leite | Iogurte, queijo |
Referencias
1.
PEREIRA FAI, CERVATO AC. Recomendações nutricionais. In: PAPALÉO NETTO
M, editor. Gerontologia. São Paulo:
Atheneu; 1996.p.248-61. .
2.
LIMONGI JCP.
Doença de Parkinson: como diagnosticar e tratar. Rev. Bras. Med 1993; 50
(9)1078-84.
3.
Boletim
Associação Brasil Parkinson, n.16,
1998 (Problemas do Trânsito Intestinal e Doença de Parkinson), P.06, (Matéria
de autoria do Dr. Vitaux, publicada no Boletim n. 53 da Association France
Parkinson, tradução da Prof. Teresa de Freitas Limongi)
4.
COITINHO DC et al. Condições Nutricionais da População 2.2- Etiologia
Brasileira: Adultos e Idoso. INAM (Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição). Brasília, 1991.
Brasileira: Adultos e Idoso. INAM (Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição). Brasília, 1991.
5.
MARUCCI MFN e GOMES MMBC. Interação Droga-Nutriente em Idosos. In: PAPALÉO NETTO M, editor. Gerontologia. São Paulo (SP):
Atheneu; 1996. p.273-83.
6.
CERVATO AM et al. A Alimentação na Terceira Idade. São Paulo: Faculdade de Saúde
Pública (USP); 1997.
7. BODINSKI,LOUIS
H.Dietoterapia Princípios e Prática.São
Paulo Atheneu; 2006. p:243-244.
8. NETO,FAUSTINO
TEIXEIRA. Nutrição Clínica. ed.
2ª.Rio de Janeiro:Guanabara Koogan S.A,2003.383-387 p.
9. GOLDMAN,LEE
M.D.Tratado de Medicina Interna.
ed 21ª . Vol 2 .Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A,2001. 2320-2323.
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